quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Resenha: A Máquina de Contar Histórias


Vinícius Becker é um escritor famoso. Na noite de lançamento de seu novo romance, enquanto tinha todos os holofotes voltados para si, sua esposa, Viviana, morria sozinha em um quarto de hospital, após anos de luta contra a leucemia. Quando finalmente fica sabendo da morte da mulher, ele corre para casa, mas chega tarde: já havia perdido o amor de sua vida e o carinho e respeito das filhas. Sentindo o peso de suas escolhas, que o levaram a colocar a carreira em primeiro lugar, Vinícius agora se prepara para reconquistar as meninas e recompor o que sobrou da família V.

Filho de pais biólogos e pesquisadores, Vinícius descobriu sozinho o prazer da leitura dos romances, escreveu pela primeira vez aos dezesseis anos, estimulado pela professora de português – de quem ganhou o livro de técnica literária que se transformaria em sua bíblia – e decidiu seguir a carreira de escritor, em parte porque essa área realmente o atraía, em parte como ato de rebeldia contra os pais, que queriam que ele se dedicasse à ciência.

Viviana, a esposa, foi a grande incentivadora de Vinícius, bancou os primeiros trabalhos dele, colocou sua própria carreira de arquiteta em segundo plano para que ele buscasse seu sonho, assumiu sozinha a educação das filhas e a administração da casa enquanto o marido passava cada vez mais tempo trancado no sótão, trabalhando, ou viajando pelo mundo para divulgar seus livros. Mesmo depois do diagnóstico de leucemia de Viviana, Vinícius não alterou em nada sua rotina; pelo contrário, mergulhou ainda mais no trabalho. Ele não sabia ao certo como lidar com a situação e, em seu entendimento, continuar oferecendo à família uma boa condição financeira era a melhor forma de ajudar.

Infelizmente, Vinícius estava errado. Mais do que dinheiro, a esposa e as filhas precisavam desesperadamente de sua presença, algo que ele jamais pensou que importasse. A morte da esposa finalmente o faz enxergar seus erros e, a fim de se reaproximar das filhas, ele decide dar um tempo em sua carreira para conhecer aquelas meninas sobre quem sabia tão pouco. Assim, contando com a sorte e com muita determinação, Vinícius, Valentina (a filha adolescente) e Vida (a caçulinha) embarcam em uma viagem internacional com paradas estratégicas escolhidas por ele. Mas será que uma ausência de anos pode ser compensada com um roteiro inesquecível?

Gostei muito da história, que nos faz refletir sobre a real importância das coisas. Às vezes, mesmo com as melhores intenções, acabamos fazendo escolhas equivocadas e afetamos negativamente a vida de outras pessoas. O que mais me agradou na trama, além do tema em si, foram a referências literárias (Kerouac, Salinger, Shakespeare) e musicais, algo que, pelo que sei, é uma característica do Maurício Gomyde

No entanto, o acesso de Vinícius ao computador da filha me pareceu um tanto inverossímil. Desculpa, mas acho pouco provável que alguém saia de casa e deixe o computador ligado com tudo aberto, sem senha nem nada. Ainda mais uma adolescente. A mim não convenceu. A troca de e-mails entre Vinícius e a tal amiga da filha também me pareceu surreal, mas, felizmente, teve uma explicação convincente no fim, embora eu ache que a filha mais velha tenha aceitado as desculpas rápido demais. Sei lá, talvez ela tenha um coração bom, que sabe perdoar. Eu agiria de outra forma, com certeza.

“O sentimento de perda de parte fundamental de sua vida chegava ainda mais devastador do que as cenas mais dramáticas descritas em suas histórias. Cenas plantadas com a intenção deliberada de fazer os leitores chorarem. Que ele havia rascunhado na frieza de seu escritório, esfregando as mãos e feliz por obter o que chamava de ‘parágrafo perfeito’ (...) Mas ele nunca se imaginara como personagem de uma cena real, o choro dentro de um táxi em meio à busca frenética pelo 'trajeto perfeito'. Se aquilo fosse uma de suas tramas, ele conseguiria fazer os ponteiros dos relógios andarem mais lentos ou mais rápidos. Como criador, ele teria nas mãos o poder de ligar ou desligar os semáforos. Poderia fazer o carro voar, um helicóptero aparecer do nada e ele próprio, personagem-autor, pilota-lo sem nunca ter feito aquilo antes. Ressuscitaria as pessoas, brincaria de ser Deus. Ali, na vida real, era impossível subverter a lógica precisa dos fatos".


Uma história sobre escolhas e suas conseqüências, sobre amor, família e segundas chances. Recomendo.


Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2014 - Mês de Dezembro: Lançamentos de 2014. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2014, clique AQUI.

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2 comentários:

Anônimo disse...

Olha, que bacana! Amei a resenha. Tenho o livro aqui, mas ainda não li e nem sei quando. Adicionei muitos títulos no TBR Book Jar. :p

Geralmente, costumo me envolver com histórias que focam no cotidiano e nas relações familiares. Então, acho que vou curtir!

Bjs ;)

Michelle disse...

Ana,
Que bacana! O TBR Jar dá uma forcinha nas leituras, né? Acho que vai gostar sim :)